Contra a censura

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O que a censura à obra de Gidalti Jr. em uma exposição revela? O jornalista Júlio Miragaia analisa o caso.


Não é de hoje que vemos histórias em quadrinhos sendo alvo de censuras. Nos Estados Unidos chegou a ser criado um rigoroso código, após uma onda anticomunista no país, nos anos 1950. No Brasil, durante o regime militar, havia um código de ética com 18 artigos, que proibiam cenas de sexo, violência e ofensas ao Estado.







A imagem censurada faz parte do livro “Castanha do Pará”, vencedor do prêmio Jabuti de melhor história em quadrinhos. (Fonte: Revista O Grito)

Vários são os casos que poderiam ser exemplificados aqui, mas opto pela objetividade do assunto em questão para tratar de um caso de censura de nosso tempo. Foi retirada de exposição, no dia 16 de abril, a ilustração de capa do livro “Castanha do Pará”, em um shopping na Rodovia Augusto Montenegro, em Belém. 

O autor da obra é o mineiro Gidalti Moura Jr. Ele é o vencedor do prêmio Jabuti de melhor história em quadrinho, no ano de 2017. A imagem mostra o protagonista da HQ, um menino com cabeça de urubu, fugindo de um policial, no Mercado do Ver-o-Peso, no centro de Belém.

O assunto transbordou para as redes sociais, ganhando partidários favoráveis e contrários à imagem

A imagem foi retirada pela organização da exposição após críticas de policiais militares e, como previsto, o assunto transbordou para as redes sociais, ganhando partidários favoráveis e contrários à imagem.

A assessoria de comunicação da Polícia Militar do Pará chegou a emitir uma nota em que confirma que “comunicou à administração do Parque Shopping a insatisfação da tropa quanto à abordagem da imagem da atividade militar na obra que a decisão de retirada foi do Parque [Shopping], uma vez que a PM não tem qualquer ingerência sobre a medida”. Por outro lado, o artista criticou a decisão da organização da exposição em sua rede social.

Ações autoritárias têm sido cada vez mais legitimadas por um “web tribunal inquisidor”

“A obra é ficcional, tem caráter lúdico e expõe situações rotineiras nas metrópoles brasileiras. Quem a compreendeu como apologia ao crime e/ou a desmoralização da polícia militar, o faz de forma leviana e sem ao menos ler o livro ‘Castanha do Pará’. A retirada da imagem da exposição é uma vitória parcial da ignorância, do medo e de forças antagônicas à liberdade”, desabafou o artista.

O que parece cristalino nessa situação é que ações autoritárias têm sido cada vez mais legitimadas por um “web tribunal inquisidor”. Se uma obra de arte, um assunto ou uma opinião não passam pelo crivo conservador, por mais legítimo que seja o objeto ou ideia em questão, eles são violentamente censurados por uma ação combinada, mesmo que de forma inconsciente, como a polícia afirma que tenha ocorrido.

Se uma obra não está na agenda dos defensores dos “bons costumes”, não serve.

No passado, a censura era legitimada por leis. Nos dias atuais, as narrativas estabelecidas por um senso comum conservador bastam. Se uma obra não está na agenda dos defensores dos “bons costumes”, não serve.

Mesmo não sendo censura direta, ordenada por uma autoridade por meio de uma legislação em vigor, o caso colocado é censura. A autocensura foi algo comum no regime militar como medida preventiva de artistas para evitar problemas com os militares. E é precisamente isso que vemos no caso da premiada HQ.   

Nela, um menino-urubu corre de um policial militar. Mal sabia ele que seria duplamente capturado. Pela PM e pelo senso comum conservador de internautas, mobilizados por robôs ou pela própria ignorância para disseminar ódio, intolerância e a legitimação de uma sociedade em que os valores autoritários estão acima de qualquer suspeita ou liberdade.

Júlio Araújo Miragaia, 33 anos, jornalista e poeta. Atualmente, mora em Macapá, mas vem a Belém frequentemente. É autor do livro de poemas “Estrangeiro de Pedras e Ventos”.

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