A invisibilidade da escrita feminina no Brasil e no Pará

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No texto intitulado “Por que nos perguntam se existimos?”, presente no livro “Entre resistir e identificar-se – para uma teoria da prática da narrativa brasileira de autoria feminina”, a escritora Marina Colasanti provoca as leitoras e os leitores com uma série de argumentos sobre como a sociedade brasileira, no ano de 1997, invisibilizava a literatura feita por mulheres no país. Passados 21 anos, é preciso dizer de uma forma categórica: quase nada mudou.

O evento Roda de Escritoras Paraenses, organizado por Carol Magno, expõe o problema da exclusão das mulheres e convida as autoras para debater o assunto (FOTO: Flávia Cortez)

Aqui proponho uma rápida análise do quantitativo de homens e mulheres dentro da Academia Brasileira de Letras (ABL), por exemplo: são 45 homens e 5 mulheres ocupando cadeiras, holofotes midiáticos e lugares de prestígio na crítica especializada.  Deixando de lado o fator qualidade da literatura produzida dentro daqueles muros – salvo os casos de Nélida Piñon, Ana Clara Machado e Lígia Fagundes Telles – chamo a atenção para o fato de que ali é um local legitimado pela nossa sociedade.

Na ABL figuram possíveis nomes para um cânone, os quais serão repassados exaustivamente aos futuros leitores por meio de livros didáticos e paradidáticos, na universidade, na crítica, no mercado literário, nas antologias e livros de história da literatura, enfim, para a formação cultural e educacional da nação. Mas o que tudo isso significa, de fato? Respondo de forma clara: significa uma desigualdade vergonhosa presente na falta de representatividade feminina neste espaço político para as letras nacionais. Este é um tipo de invisibilização do trabalho de todas nós, escritoras.

A Feira Pan-Amazônica do Livro, em 21 edições, homenageou principalmente homens, em detrimento das autoras da região

Trazendo para a realidade paraense, de periferia do Brasil, a vergonha ainda é maior, pois nas 21 edições do maior evento literário da região norte do país, a Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada pelo Governo do Estado do Pará, apenas quatro escritoras foram homenageadas: Amarílis Tupiassu, em 2016; Dulcinéa Paraense, em 2011; Eneida de Moraes, em 2003 e Maria Lúcia Medeiros, em 2004. Em todos os outros anos, apenas escritores receberam a homenagem oficial. A comparação revela um desnivelamento alarmante.

Na edição deste ano, a organização da Feira Pan-Amazônica se utilizou de um corpo feminino negro para a divulgação, com a desculpa de ser um personagem típico da cultura do país homenageado, a Colômbia. Ora, além de ser uma apropriação grave da imagem-corpo da mulher negra em uma peça publicitária, é também uma violência contra uma rede de criadoras literárias da região, entre estudiosas da área e autoras.

Há eventos particulares de literatura paraense em que estudiosas da obra de autoras não são convidadas

A foto do cartaz foi modificada, tendo seu sentido timidamente alterado em decorrência de críticas de escritoras, escritores e da sociedade civil em páginas de redes sociais, perfis particulares e jornais de divulgação nacional. No caso do cartaz, vemos mais uma forma de nos tornar invisíveis, só que agora se utilizando de nossa representação. Surge então um aspecto simbólico ainda mais grave que a simples exclusão da presença feminina: há o uso discriminatório dos atravessamentos culturais de cor e raça.

Há também eventos particulares de literatura paraense em que estudiosas da obra de autoras do suposto cânone feminino do Pará, que é composto de cinco nomes – a saber, Eneida de Moraes, Dulcinea Paraense, Adalcinda Camarão, Maria Lúcia Medeiros e Lindanor Celina – não são convidadas, ficando restrito a homens dizer se o que nós escrevemos é ou não é literatura, sem ao menos que os homens convidados se deêm ao trabalho de estudar a fundo as obras.

Professores classificam a literatura feita por mulheres no Pará como uma “literatura menor”

Podemos citar também casos dentro das universidades públicas da região norte. Professores, dentro das salas de aula, da graduação ao doutorado, desestimulam ou proíbem (e eu fui testemunha ocular disso) as alunas e os alunos de estudarem a literatura paraense feita por mulheres por ser, supostamente, uma “literatura menor”. E finalmente, há uma revista literária em Belém em que só figuram nomes masculinos e os editores, quando questionados, alegam que “é um primeiro número, a ideia é de que as mulheres venham nas próximas edições”. É preciso dizer, no entanto, o editorial não especifica este objetivo, a suposta divisão entre edição de homem e de mulher.

Todos os casos citados são uma pequena mostra de como ocorre o apagamento, invisibilização, silenciamento, descredenciamento, da literatura feminina no território nacional e local, seja por meio institucional, nos órgãos públicos, seja no jogo social, entre pares, no cerne da própria categoria de escritores. Por fim, aqui fica a mesma pergunta que Marina Colassanti citada nos faz, com um adendo meu: será que sequer perguntam se existimos?

Carol Magno é de Belém do Pará. Mestre em Artes, também formou-se em Letras pela UEPA e teatro pela Escola de Teatro e Dança da UFPA. Desenvolve projetos na área de teatro e literatura como “Roda de Escritoras Paraenses” e “Quando abro minha Aruanda” junto ao Coletivo Mergulho. Participou da coletânea Poesia do Brasil (2013), antologia Eco Poético (2014) e publica no blog Espasmos Literários e Rede de Criação Feminina em Belém. Lançou Feminino à queima-roupa (2016), seu primeiro livro, o qual traz a voz de uma mulher amazônida, jurunense, inquieta. Contato: carolmagno13@gmail.com

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