O que o cinema ainda tem a dizer à sociedade e à universidade pública em Belém?

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Uma resposta possível talvez esteja no documentário “No intenso agora”, de João Moreira Salles. Exibido no Líbero Luxardo em apenas seis sessões, num horário praticamente inviável para boa parte dos frequentadores do cinema em Belém, o filme tem recebido críticas favoráveis e gerado a expectativa de melhor produção brasileira do gênero em 2017.
 
A última sessão na cidade foi na quarta-feira da semana passada, dia 09 de maio, às 15h50m
 
Partindo de imagens feitas por Elisa Margarida Gonçalves Moreira Salles, mãe do cineasta, durante uma viagem à China em 1966, período em que se inicia a Revolução Cultural, o filme constrói uma narrativa com base em dezenas de documentos audiovisuais, gravados em pelo menos três países (França, Tchecoslováquia e Brasil), em momentos históricos de “grande intensidade”. De autorias diversas, esses registros, entre os quais estão alguns sem qualquer identificação, alinhavam, a partir de diferentes visões, uma interpretação própria do narrador acerca dos acontecimentos. Não à toa, o trabalho é dedicado ao documentarista Eduardo Coutinho, morto em 2014.  
 
INTENSIDADE, DESEJO E ALEGRIA
 
A intensidade da alegria, do sonho, da utopia é representada principalmente por Maio de 1968, na França, onde a revolta iniciada por estudantes universitários culminou numa greve geral de trabalhadores. De forma muito sensível e atenta, o documentário mostra como as solidariedades e tentativas de diálogo entre as duas categorias, cujas vozes, desejos e vontades podiam enfim ser manifestadas nas ruas para serem “ouvidas, não estavam livres de contradições. Em comum havia a crítica aos valores e tradições burgueses, mas a universidade era, até então, predominada por jovens de famílias economicamente bem situadas. Ainda que, no plano discursivo, o caráter elitista das instituições de ensino superior e do próprio sistema educacional estivesse em questão, a desconfiança dos operários e trabalhadores em relação aos estudantes, seus “futuros patrões”, gerava tensões constantes no interior dos movimentos. Diferente de outros movimentos, como o 68 estadounidense, mulheres e negros também eram minorias no Maio de 68 francês, predominado por homens brancos.

A negação das hierarquias e a ausência de controle das narrativas por sindicatos e pelo partido comunista também aumentavam a desconfiança em relação aos rebeldes e logo geraram um pacto dessas lideranças com o governo do general Charles de Gaulle. O espírito anárquico, irreverente, poético e mesmo lúdico dos movimentos estudantis, que implicou na ausência de um “programa” ou um “plano de propostas” consistente, foi gradativamente solapado pela astúcia conservadora, que confrontou as manifestações por meio de táticas diversas, da violência policial extrema à sedutora assimilação de lideranças políticas pelo mercado midiático, da exitosa tentativa de reduzir as amplas reivindicações por um “novo mundo” a questões salariais à convocação da sociedade conservadora para a manutenção da ordem “natural” das coisas.
 
RESSACA
 
Uma cena demarca bem o processo de esfacelamento da esperança dos jovens manifestantes e operários inconformados. Ao fim das negociações com os patrões, a trabalhadora de uma fábrica expõe, quase em desespero, a sua revolta contra o acordo obtido e apequenado diante das promessas de construção de um mundo mais inclusivo, mais justo, e mesmo de uma nova forma de organizar o trabalho. Um estudante tenta fazer coro com ela, mas o sindicalista (homem, branco, adulto) a desaconselha, desfazendo-se dos seus apelos porque, enfim, mulheres, trabalhadores empobrecidos e estudantes seriam devolvidos aos seus respectivos lugares, onde imperariam as leis do silêncio, da obediência às hierarquias, da ausência de perspectivas próprias em relação aos próprios destinos.  
 
A alegria, aquela ideia nova contra a qual os regimes totalitários são absolutamente contrários, seria então substituída pela tristeza, melancolia e revolta, associadas às perdas físicas dos assassinados pela repressão, e às perdas simbólicas, representadas pela omissão das pautas que estavam além das questões trabalhistas imediatas.
 
A invasão soviética à Tchecoslováquia, com o intuito de conter a Primavera de Praga, em agosto de 1968, culminaria no suicídio do jovem estudante de letras Jan Palach. Num protesto desesperado diante da crescente apatia social gerada pela repressão russa, a qual, gradativamente, sufocava os anseios de todo um coletivo por abertura política, o jovem ateou fogo ao próprio corpo na Praça de São Venceslau, gerando comoção em todo o país. Pela ausência de novos sentidos após a experiência coletiva de luta política, aquém de um processo efetivamente revolucionário, muitos estudantes franceses tiveram no suicídio o desfecho melancólico de suas histórias individuais. No Brasil, em março do mesmo ano, muitos foram às ruas protestar mas poucos de fato parecem ter chorado o assassinato do estudante paraense Edson Luis de Lima Souto pelo comandante da tropa militar, aspirante Aloísio Raposo, que mobilizou multidões nas ruas de diversas cidades.
 
Da mesma forma com que o potencial transformador e criativo dos movimentos políticos foi, senão absorvido, “neutralizado” pela ordem conservadora, após a morte, as vidas desses jovens, as suas riquezas de detalhes e mesmo de contradições próprias ao estar vivo, seriam limitadas ao serviço da “causa” (política).

No decorrer da narração, João Moreira Salles indaga, quase torcendo, se a mãe, cujo destino seria o mesmo dos estudantes franceses embotados pelo fim daquela primavera, teria acompanhado a intensidade dos movimentos em Paris na mesma medida daquele contentamento resultante da surpresa em conhecer a China recém-comunista e do contraste desta com a própria vida milionária.
 
JUNHO DE 2013
 
Para quem assiste ao documentário, é inevitável fazer comparações entre o Maio de 1968 francês e o Junho de 2013 no Brasil. Em Belém, as análises políticas pouco falam da greve de jornalistas do Diário do Pará, em setembro, ou da greve de estudantes de comunicação da Universidade Federal do Pará, ambos em 2013, como desdobramento daquelas manifestações. Nos anos seguintes, foram muitas as manifestações – dos incansáveis movimentos de trabalhadores rurais aos de artistas, de professores, de mulheres e até de policiais militares atuantes na capital paraense.

Pressionando por reformas político-institucionais e estruturais, estudantes, técnicos e professores deflagraram greve na Faculdade de Comunicação da UFPA. 
(FOTO: Kleyton Silva)

O discurso da esquerda é o da instrumentalização, ou seja, a dificuldade de organizar o “descontentamento” em torno de pautas, a dispersão de objetivos e a ausência de uma agenda de reivindicações por parte dos jovens manifestantes teriam aberto as porteiras para o avanço da direita até o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016. As investidas conservadoras, principalmente midiáticas, tornaram mesmo o terreno facilmente apropriável pelos movimentos de direita.
 
Os ataques diretos sob a forma de críticas ao “insustentável” custo das universidades públicas e indiretos, a exemplo das reivindicações por uma “universidade sem partido”, vindas atualmente de diferentes setores da sociedade, fazem pensar nos significados de todos esses cenários.
 
Enquanto as manifestações de Maio de 1968 convulsionavam a França, rejeitando a rigidez das tradições e as desigualdades de acesso à universidade ao mesmo tempo em que mantinha mulheres e negros praticamente de fora dos debates, ainda temos hoje a obrigação de lutar para que a universidade pública brasileira seja um espaço efetivamente inclusivo, preparado para pensar desigualdades e lidar com as diferenças. Na Amazônia, onde lidamos com camadas e camadas de violências coloniais, de exclusão social e de desigualdades históricas, das regionais às locais, essa questão é ainda mais visceral.
 
NO PARÁ
 
Na UFPA, são comuns denúncias de estudantes negros a respeito da violência por parte de seguranças contratados para a vigilância do campus universitário e até hoje inexistem espaços como o de creches, para que as estudantes mulheres que são mães, sobre as quais recaem a maior parte das responsabilidades com os filhos, possam concluir os seus estudos nos cursos de graduação ou de pós, por exemplo. No período de greve de rodoviários em abril passado, quando o acesso ao centro de Belém por moradores das periferias ficou praticamente inviabilizado pela falta de transporte público, houve denúncias da realização de provas no programa de pós-graduação em artes, também criticado por tornar a exigência de proficiência em língua estrangeira um critério excludente, numa agenda incompatível com as datas de realização das provas de línguas realizadas pela própria universidade.  



A segurança do campus foi argumento para o fechamento do forró, evento cultural realizado desde a década de 1980 na UFPA. (FOTO: Kleyton Silva)

Isso sem falar das burocracias que normatizam o funcionamento, a avaliação, o reconhecimento e a premiação ou punição dos cursos de graduação e de pós, na maior parte das vezes pensadas para as realidades do Centro-Sul, mantendo sob forte controle as iniciativas locais e buscando homogeneizar os prazos e formas de apresentação do conhecimento, independente das diferenças entre áreas.
 
A ESPERANÇA POSSÍVEL
 
A despeito dessas questões cotidianas, que ainda conformam na prática lugares hostis às minorias e à convivência plural, o que “No intenso agora” lembra, guardadas as devidas proporções e diferenças, é que a universidade pública mantém potências de criação, crítica, rebeldia e produção de estudos de interesse da sociedade. E, ainda que haja contramovimentos por parte dos que estão interessados em manter a ordem das coisas, a história segue em aberto.
 
Quando quem sente na pele e no peito a opressão se encontra e tenta dialogar, fazendo convergir os desejos de transformação, as forças culminam no inesperado, no imprevisível. A história nos ensina que, mesmo que haja riscos de perdas ou de ressaca pós-intensidade, as experiências produzem efeitos incontroláveis, capazes de serem sentidos além das fronteiras, muitas décadas depois.

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