Três meses depois do vazamento da Hydro, população de Barcarena segue denunciando impactos socioambientais na região

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Pelo menos oito lideranças populares ocupavam a sala da casa de Maria do Socorro Costa da Silva naquele domingo, 25 de março, na comunidade São Sebastião de Burajuba, em Barcarena. Ali funciona uma espécie de “quartel general” da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia, a Cainquiama. “Isso é quase a casa do povo”, disse um dos presentes.

Socorro do Burajuba, como é conhecida na região, tem sangue quilombola e indígena. Nascida no Icaraú, ela preside a Cainquiama e, mesmo ameaçada, é uma das vozes de resistência contra a refinaria de alumina Hydro Alunorte. “O que a empresa Hydro trouxe pra cá foi veneno pra jogar na nossa água, que nos matando cada dia um pouquinho. Isso não pode ficar impune.”

Socorro da Silva é uma liderança de São Sebastião de Burajuba, em Barcarena, que transformou sua casa em referência de resistência para a população local. (Foto: Guilherme Guerreiro Neto)

A Hydro Alunorte vem de longe dos trópicos, mais precisamente do país considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU), com base no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como o melhor lugar para se viver no mundo: a Noruega. É do governo norueguês a maior parte das ações da empresa que, há três meses, é investigada pelo vazamento de rejeitos em Barcarena.

No fim de semana pós-carnaval, o promotor Laércio de Abreu, da promotoria de Barcarena, do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), estava de plantão. Não foi um plantão comum. Naquele sábado, 17 de fevereiro, ele passou a receber mensagens com fotos e vídeos de um possível transbordamento de efluentes. As denúncias vinham de moradores do entorno da Hydro Alunorte.


A suspeita foi confirmada: uma tubulação clandestina escoava rejeitos de forma irregular


As primeiras inspeções foram feitas ainda no sábado, confirmando o alagamento na área da empresa e nas comunidades próximas. Era uma água vermelho-alaranjada, típica dos resíduos gerados pela empresa. No dia seguinte, mais inspeções. O trabalho de domingo foi acompanhado pelo promotor, por representantes do Instituto Evandro Chagas (IEC) e de órgãos municipais e estaduais de meio ambiente.

Enquanto os pesquisadores do IEC coletavam amostras da água, uma suspeita se confirmava: havia uma tubulação clandestina, que escoava rejeitos na natureza de forma irregular. O transbordamento não era mais o único problema.

Com o avanço das investigações pela força-tarefa criada em março entre MPPA e Ministério Público Federal (MPF), acabaram descobertos ainda um canal antigo, espécie de comporta que lançava efluentes sem tratamento no rio Pará, e um desvio de drenagem que passava pelo depósito de carvão e também afetava o meio ambiente.


Desde as denúncias de fevereiro, a Norsk Hydro e a Hydro Alunorte negam qualquer ocorrência de transbordamento

A Hydro Alunorte é um dos braços da Norsk Hydro ASA, centenária corporação norueguesa que atua em 40 países. A multinacional chegou ao Brasil na década de 1970, como acionária da Mineração Rio do Norte, que explora bauxita em Oriximiná, no Baixo Amazonas. Em 2010, numa troca de ações com a Vale, a Norsk Hydro abocanhou a refinaria de alumina Alunorte e a fábrica de alumínio Albrás, em Barcarena – as maiores do mundo em suas atividades –, além da mina de bauxita do município de Paragominas, no sul do Pará.

Desde as denúncias de fevereiro, a Norsk Hydro e a Hydro Alunorte vêm negando qualquer ocorrência de transbordamento. As empresas iniciaram conversa com a força-tarefa sobre medidas de emergência, mas se recusaram a assinar o Termo de Ajustamento de Conduta e passaram a atacar os órgãos oficiais, principalmente IEC e MPPA.

Em depoimento dado esta semana à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa), que investiga os danos ambientais na bacia do rio Pará, o diretor presidente da Hydro Alunorte, Carlos Neves, revelou que recebeu ligações de outros diretores na madrugada do dia 17, por volta das 4h, informando que havia áreas alagadas na empresa e que os níveis das bacias estavam subindo. Mas alegou que os alagamentos eram apenas de água da chuva e reiterou que não houve transbordo.

CONTAMINAÇÃO CONTINUADA

Barcarena fica a 40 quilômetros de Belém. São mais de 100 mil habitantes distribuídos pelos três principais núcleos urbanos: Vila dos Cabanos, Vila do Conde e a sede do município. Em 40 anos, a população cresceu quase seis vezes. A instalação do Distrito Industrial transformou a cidade.

“Esse progresso assassinou nossa identidade e nossa atividade. Esse progresso nunca chegou até nós”, conta Socorro do Burajuba. A quilombola viu as primeiras empresas aportarem ali, entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Eram barcos bonitos, homens brancos, alojamentos, relembra Socorro. Ela diz que, à época, não compreendia o que estava acontecendo.

Os danos desse processo aparecem nas lembranças de Socorro e num chão há tempos adoecido pelas marcas das grandes indústrias. “Esse não é o primeiro vazamento nem é o único. Não se pode falar só dele. Isso já vem se arrastando. Sempre a gente passa como mentiroso.”

“Eles pegam tudo que sai daquelas bacias e jogam no rio”, diz a pesquisadora Simone Pereira sobre as ações da Hydro Alunorte em Barcarena.

Desde 2007, o Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam), da Universidade Federal do Pará (UFPA), faz pesquisas nos rios, nos solos e com a população de Barcarena. A professora e engenheira química Simone Pereira, que coordena o laboratório, também acredita que é preciso lembrar o histórico de contaminação contínua.

“Eles pegam tudo que sai daquelas bacias e jogam no rio. Jogam a soda cáustica [Hydro Alunorte], jogam o ácido sulfúrico [Imerys], jogam efluente cheio de metal. E eles fazem isso há 20 anos”, explica a professora da UFPA. O efeito cumulativo não atinge apenas as comunidades próximas às empresas, tem consequências para todo o município.

No caso sob investigação, o primeiro relatório do Instituto Evandro Chagas, baseado em amostras coletadas no fim de semana da denúncia e apresentado ainda em fevereiro, identificou a ocorrência de alterações que tinham comprometido a qualidade das águas superficiais. O nível de alumínio e de outros elementos próprios de efluentes da Hydro Alunorte era elevado.

A refinaria contratou a empresa paulista SGW Service para a produção de uma análise alternativa. O relatório particular foi produzido em inglês e apresentado em abril, simultaneamente no Pará e em Oslo, a capital norueguesa. Para a SGW, não houve transbordo dos depósitos. O estudo reconhece o descarte feito pelo canal antigo no rio Pará e indica nível de alumínio acima do aceitável no rio Murucupi, com base em amostras coletadas cerca de um mês após a denúncia.

GOVERNO DO PARÁ

A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), inicialmente, seguiu o discurso da empresa. “As inspeções não detectaram vazamento da bacia de rejeito”, disse, no dia 20 de fevereiro, o então secretário de meio ambiente Luiz Fernandes Rocha. No dia seguinte, ele deixou a Semas e retornou à pasta de Segurança Pública e Defesa Social, que havia ocupado até 2014.

No dia 23 de fevereiro, em entrevista coletiva, o governador Simão Jatene argumentou que o volume de chuva acima dos padrões estaria ligado a um novo cenário climático. “Muitas vezes se faz todo um debate desconsiderando o fato de que nós estamos todos diante de um fato novo [aumento do volume das chuvas].”

O que não é de hoje são os desastres socioambientais que atingem Barcarena. Estão na lista o derramamento de rejeitos da Imerys, em 2007, que chegou a atingir o rio Pará; o vazamento de lama vermelha da bacia da Alunorte – quando ainda era da Vale –, em 2009, um dos mais graves; e o naufrágio do navio Haidar, em 2015, com cerca de 3,9 mil bois mortos na área do porto de Vila do Conde.

CHAGAS DO DESENVOLVIMENTO

Muitas famílias acabaram expulsas de suas terras por conta da especulação do Distrito Industrial de Barcarena. Foi assim com a de Sandra Amorim, desapropriada em 1984. Na negociação imposta, o pai dela, que não sabia assinar, pôs o dedo. Morreu cinco meses depois de deixar seu canto no mundo.

A mãe de Sandra, com medo de ter as filhas crianças abusadas pelos peões, foi embora para a sede de Barcarena. Só a partir de 2007 as crias já crescidas voltaram. Em 2013, conseguiram finalmente a certificação quilombola da comunidade Sítio São João.

Sandra anda cansada, mas não baixa a guarda. Ela é coordenadora estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e integrante do Movimento Barcarena Livre, duas frentes de luta para frear a destruição causada pelas empresas. “O grande capital vem pra esmagar. As nossas histórias tão se acabando. E, junto com elas, tamos nós também.”

 “As nossas histórias tão se acabando. E, junto com elas, nós também”, diz Sandra Amorim, coordenadora estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM)

 LICENCIAMENTO

Por decisões judiciais estadual e federal, as atividades da refinaria Hydro Alunorte estão parcialmente suspensas, com proibição de uso do Depósito de Resíduos Sólidos 2 (DRS 2) e redução da produção para 50%.

Um dos pontos-chave do caso é o licenciamento do DRS 2, que deveria funcionar apenas em fase de testes. A licença ambiental usada para liberação do segundo depósito foi a mesma do DRS 1, de mais de 30 anos atrás. A autorização da época previa ampliação da bacia original, mas não construção de outra.

“Considerando que o processo de licenciamento originário data da década de 1980, que se trata de uma outra tecnologia, que já é numa outra área, que envolve uma outra bacia hidrográfica, a do São Francisco, urgia sim que [o DRS 2] tivesse o processo de licenciamento nos termos do que diz a lei”, avalia o promotor Laércio de Abreu, do Ministério Público do Estado do Pará.

 Para o Sindicato dos Químicos de Barcarena (SindQuímicos), há iminência de demissão em massa

https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif“Não, não, não, embargo não é solução!” Trabalhadores dos quadros da Hydro de Barcarena e Paragominas ocupavam o auditório da Alepa. Estavam lá por conta da acareação entre SGW, IEC e Laquanam, marcada para aquela terça-feira, 8 de maio, pela CPI que investiga o caso. Mas uma jogada da corporação norueguesa impediu a confrontação de testemunhas.

A Hydro Alunorte se aproveitou de uma brecha no texto de notificação enviado pelos deputados e alegou que a SGW Service não fora convidada. No dia anterior, representantes da empresa de consultoria ambiental deram seus depoimentos à CPI e confirmaram estar cientes da acareação. Os trabalhadores seguiram então da Alepa até a sede da Hydro em Belém para pedir esclarecimentos aos patrões.

Desde que a Justiça decidiu restringir a operação da Hydro Alunorte pela metade, foram dadas férias coletivas a cerca de 600 trabalhadores de Barcarena e 400 de Paragominas. Para o Sindicato dos Químicos de Barcarena (SindQuímicos), há iminência de demissão em massa.

O medo do desemprego afeta toda a cadeia produtiva do alumínio, mas recai principalmente sobre os trabalhadores terceirizados. E repercute no comércio da cidade. “Infelizmente, nesses 35, 40 anos de projetos, nunca foi viabilizado um outro viés que não seja o viés econômico das empresas. Então, hoje, o município depende das empresas”, explica o presidente do SindQuímicos, Gilvandro Santa Brígida.

 “Não tem como a gente pular nessa água mais, não. É uma pena”, diz Sandra Amorim

Na beira do rio Murucupi, atingido pelo alumínio da Hydro Alunorte e pelo chorume de um lixão a céu aberto situado às redondezas, Sandra Amorim lembra da infância e sonha com o dia em que a água volte a ser limpa. Ela não tem mais coragem de comer peixe dali. Nem de tomar banho. “Não tem como a gente pular nessa água mais, não. É uma pena, com um calor desse que …”

Era sexta-feira, dia da entrega de água potável e mineral. Os galões vazios já estavam na varanda da casa de Sandra. Mesmo cercadas de rios, as comunidades de Barcarena têm que esperar para, uma vez por semana, receber água boa. Deve ser isso o tal desenvolvimento.


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