Águas de Burajuba: os impactos silenciosos do vazamento de rejeitos em Barcarena

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on telegram
Telegram

A caminhada da casa de Seu Clarivaldo Brandão, 53 anos, até as margens do rio Murucupi é curta. Ele e a família moram na comunidade quilombola de São Sebastião de Burajuba, no município de Barcarena, a cerca de 22 km de Belém (PA). Em menos de dez minutos, encontramos a água turva, esbranquiçada, diferente da tonalidade alaranjada que apareceu nas fotos do transbordo das bacias da Hydro Alunorte no dia 17 de fevereiro deste ano. Ao longo do caminho, Clarivaldo e o filho, Arivaldo Moraes, 29 anos, falavam sobre como as plantas daquelas terras são parte do processo de cura da comunidade. Algumas ervas medicinais ajudam a combater gastrite, explicou Clarivaldo, que caminhava à nossa frente assumindo a postura de guia. Arivaldo já havia lembrado que as ocorrências de gastrite vêm aumentando desde 2009, quando ocorreu um episódio ainda mais grave de derramamento de lama vermelha. “Tivemos uns quatro casos de pessoas que morreram de câncer no estômago. Não vai dizer que isso foi um fato isolado. Isso não é comum de acontecer”, disse o agricultor.


Seu Clarivaldo, da comunidade de Burajuba, aponta os casos de gastrite e de câncer de estômago como consequência do derramamento de rejeitos da Hydro. (Foto: Rodrigo Avelar).

Esse não é o único problema de saúde que se manifesta por lá. Socorro Pinheiro, 53 anos, também moradora da comunidade, aponta para as enfermidades de seus netos. Um deles aparece na porta da casa enquanto conversamos na varanda. “Esse aí com o dente todo preto. Disseram que é tipo uma alergia”, conta, ao mesmo tempo chamando o menino e mostrando o céu da boca dele. Outra neta de Socorro tem manchas nas costas, descritas pela agricultora como ásperas e duras. Os sinais apareceram logo depois do vazamento mais recente da Hydro, junto com alergias, vômito, dores de cabeça e queda de cabelo. Esses sintomas – exceto a mancha nas costas da criança – são indicadores de contaminação por chumbo (Detalhes na página 28), denunciados há cerca de 11 anos pelas pesquisas de Simone Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam), da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde estuda a poluição de metais pesados em rios da Amazônia.

Analisando os fios de cabelo dos moradores de 14 comunidades de Barcarena, a mais recente pesquisa foi realizada de 2012 até 2014. Ela foi solicitada pelo Ministério Público Federal (MPF) devido a inquérito civil iniciado em 2011, que culminou com a ação civil de outubro de 2016. A ação solicitou entrega de água potável nas comunidades. “Ficou um ano e pouco para a Justiça Federal decidir sobre o nosso pedido de liminar, que deveria ter sido feito em alguns dias, sendo urgente. E em janeiro ou fevereiro de 2018, foi decidido que era competência estadual”, explica o procurador Bruno Valente, responsável pelo caso. O processo foi transferido para a Justiça Estadual logo antes do transbordo mais recente.

À beira do Murucupi, ninguém se arrisca a chegar perto da água. Isso é dizer muito de uma comunidade cujas principais atividades são a pesca e a agricultura. Para Seu Clarivaldo, no entanto, o problema vai além da renda familiar “É que a gente já acostumado assim de ter a nossa água, a chegar lá no igarapé, tirar o short, se jogar na maré, a nadar.” Quando nossa equipe retornou à terra firme, Socorro nos ofereceu um chopp de cupuaçu e prometeu que o suco era feito com água mineral, entregue semanalmente pela Hydro na comunidade. Os moradores bebem essa água e a utilizam em algumas das receitas que preparam no dia-a-dia. A outra parte dessas preparações era feita com a água que o carro-pipa entregava duas vezes por semana, que servia a outros propósitos, como higiene pessoal. 

De fonte de renda e lazer a sinal de alerta: as águas turvas do rio Murucupi agora são vetor de contaminação na comunidade quilombola. (Foto: Rodrigo Avelar)

Após nossa visita à comunidade, o Ministério Público do Estado abriu um inquérito para investigar se a água distribuída era própria ao consumo. No dia 16 de abril, a Secretaria de Saúde do Pará (Sespa) emitiu um laudo comprovando a falta de tratamento da água do carro-pipa, além de reafirmar a presença de metais pesados no abastecimento e nos poços das comunidades afetadas. Arivaldo conta que, atualmente, a água entregue em Burajuba é captada no único ponto não contaminado dos arredores, de onde também vem a água entregue às comunidades Vila Nova e Bom Futuro. Outras comunidades seguem sem o fornecimento.

CHUVA

A água que cai do céu também não é segura. Relatos de chuva ácida estão na boca de cada morador entrevistado. As denúncias da comunidade muitas vezes são alvo de piadas. “Depois daquelas chuvas, realmente piora muito o estado de saúde da gente”, diz Socorro Pinheiro. Assim como ela, Clarivaldo também diz que essa chuva não é saudável e que estaria danificando algumas espécies vegetais. “O coco e o açaí, chega um certo ponto, que eles caem tudinho. É porque já tem a chuva ácida aqui. É o que sai dessas fábricas pra cima e quando a chuva cai, desce”, denuncia o agricultor.

A engenharia química Simone Pereira, que estuda contaminação nos rios da região, sabe há anos o que existe na água. “O maior problema da indústria de alumínio [produto da Albrás, cujo capital é controlado pela Hydro] é que eles não produzem ácido nítrico, nem sulfúrico, eles produzem ácido fluorídrico. Você sabe o que é? É o que derrete isso aqui”, diz Simone Pereira, batendo um telefone celular na mesa a sua frente.

“Ninguém colhe mais uma macaxeira, uma mandioca, mais nadinha como era antes da chegada desses projetos”, lamenta o agricultor Clarivaldo.

No quintal da casa de Clarivaldo existe um retiro de farinha – local em que se processa tradicionalmente a mandioca e seus derivados. Com a colheita, ele e a família passam uma tarde no local produzindo para venda e para consumo próprio, processo que demanda muita água para se concretizar. “Tem que colocar a mandioca de molho. Se a gente for extrair um tucupi, uma tapioca, com uma água dessa, pode dar problema nas pessoas”, comenta Clarivaldo, apresentando os utensílios do retiro. Ele explica o processo do caititu (usado para ralar a mandioca), do tipiti e, entre demonstrações, suspira: “A notícia corre longe que impactado…” A produção de farinha, além de ser uma das práticas tradicionais da comunidade, é também um dos meios de obtenção de renda. Clarivaldo nos diz que conseguia R$ 70 em cada lata do produto, mas que, com os desastres, fica mais difícil produzir. “Ninguém colhe mais uma macaxeira, uma mandioca, mais nadinha como era antes da chegada desses projetos.”

Silvio Barros, 61 anos, marido de Socorro e irmão de Clarivaldo, também é agricultor e confirma: está cada dia mais difícil “vingar” o cultivo. “Milho, arroz… Isso aqui tudo era roça”, lembra, apontando para o quintal onde ainda nascem algumas plantas, mas cuja produtividade não é suficiente para o sustento da família. Quando questionados sobre como se alimentam atualmente, Socorro hesita, mas confessa que vai almoçar arroz: “Eu não posso comer muita gordura nem fritura [por causa dos problemas gástricos]. Ele [Silvio Barros] também não pode comer, aí por enquanto só tem o arroz. De vez em quando, um filho ou outro tem uma coisa mais light… Parece brincadeira, , mas é verdade”, conta Socorro, se referindo a peixes ou aves trazidas pelos filhos para a alimentação do casal.


Assim como outros membros da comunidade, o casal de agricultores Socorro Pereira e Silvio Barros teve sua alimentação reduzida pela contaminação da região. (Foto: Rodrigo Avelar)


FUTURO

São Sebastião, o primeiro nome da comunidade, é um santo da Igreja Católica perseguido e assassinado pelo Império Romano. Sua imagem é de resiliência – mesmo atravessado por flechas, se recusa a morrer – e, de certa forma, representa a luta da comunidade para sobreviver em um ambiente de conflitos e contaminação. Arivaldo Moraes, que também é presidente da Associação dos Moradores da Comunidade Burajuba, espera os resultados do Grupo de Pesquisa Avaliação Ambiental de Grandes Projetos na Amazônia, da UFPA, que coletaram amostras do solo para análise. “É em cima desse resultado que nós vamos desenvolver o trabalho de agricultura sustentável na comunidade”, anuncia o quilombola.

“Se fosse por mim, já tinham tirado todo mundo de lá há muito tempo”, dispara Simone Pereira.

A pesquisadora Simone Pereira acredita que não seja possível reverter a situação de contaminação, já que as empresas continuarão produzindo os rejeitos. “Leva a lama vermelha pra Noruega, joga lá num fiorde [golfo de grande extensão que ocorre na Noruega] daquele. Mas se eles podem fazer isso aqui na Amazônia, por que eles não podem mandar pra lá? O passivo ambiental é deles, não é nosso. O passivo é de quem gera, na lei”, diz.

Para o procurador Bruno Valente, a situação é mais complexa pelo fato de as comunidades do Distrito Industrial serem, em sua maioria, tradicionais. Segundo a convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, é necessário realizar uma consulta prévia às comunidades antes da implantação de qualquer empreendimento ou medida que cause impactos diretos ou indiretos. “Então, a solução não é simplesmente tirar essas famílias de lá. A gente tem que ouvir melhor essa população para entender de fato o que eles pretendem”, adverte o procurador.

Em Burajuba, os moradores demonstram vontade de continuar onde estão. Têm planos para trabalhar com ervas medicinais, parte do conhecimento que contribuiu para a obtenção do certificado de autodefinição de Comunidade Remanescente de Quilombo. Só que esse futuro parece distante com o nível de contaminação causado pelas empresas do Distrito Industrial. “A intenção é nos tirar daqui e dar a terra pra eles, para as empresas. É por isso que eles fazem de tudo pra estressar a gente”, comenta Clarivaldo.

Arivaldo enxerga como peça fundamental para a reconstrução da comunidade uma autonomia acerca das possíveis indenizações das empresas. “Se esse dinheiro for pra mão do Estado, na nossa opinião, isso nunca vai ser aplicado aqui”, diz Arivaldo. Ao se despedir, Silvio Barros desejou que um dia possa oferecer à equipe de reportagem um almoço. “Com peixe pescado aqui do rio mesmo.”

Continue lendo...

Guajajara

Sônia Guajajara foi recebida com um canto de saudação na sala da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na Universidade Federal do Pará (APYEUFPA), na última