Jornalismo é “abrir espaço para a visão mais crua da cidade”, avalia o jornalista Gustavo Dutra

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A primeira reportagem que fiz para o Outros 400 foi sobre a Batalha de São Brás.Lembro de chegar com uma camiseta qualquer, bermuda e chinelo para conversar com quem estava em frente ao Mercado assistindo aos duelos de rimas. Bati papo com os MCs, público, ambulantes. Sentei no chão com alguns deles pra falar e ouvir melhor. Para mais de uma pessoa, tive que explicar (algumas vezes) que não era um estudante da UFPA fazendo pesquisa, mas que estava trabalhando para um portal de jornalismo. Eles insistiam que não parecia jornalismo. Nada mais justo.

No mercado engessado de comunicação em que nos acostumamos a viver, é mesmo um pouco difícil comprar a ideia de um veículo disposto a fugir do padrão tradicional de mídia e tratar o jornalismo como serviço público, e não mercadoria. Essa noção é tão enraizada na nossa história que muitas vezes nem percebemos a necessidade de um produto diferente. 


Da Batalha de São Brás aos pássaros juninos, o jornalista Gustavo Dutra atuou como repórter da área de cultura. A proposta era abordar uma Belém não oficial. (FOTO: Kleyton Silva)

O Outros 400 é importante por se propor a fazer essa mudança. Não através da promessa de inovação e imparcialidade, vestido com o pomposo (e deprimente) título de “formador de opinião”, nem nada tão teatral assim. O jogo do portal é bem básico, na verdade: abrir espaço para a visão mais crua da cidade, baseada na vivência de quem realmente faz esse lugar.

Em pouco mais de um ano, pude ver um produto de mídia ser construído em uma via de mão dupla com a população. Um veículo que mais do que perguntar “o que?”, “onde?”, e “quando?”, vinha com um sonoro “ok, mas e aí? O que tu me dizes?”. 

Pra ser sincero, foi bem fascinante. A cidade tem muitas histórias além da versão oficial, e são essas que importam. Ouvir o movimento de mulheres e questionar os próprios privilégios. Tratar religiões de matriz africana sem as colocar como exóticas. Ouvir quem vive nas periferias sem espetacularizar suas vidas. Movimento negro, LGBTI, ribeirinhos, de cultura tradicional, underground, refugiados, juventude. Uma gama de histórias sob o olhar de quem também viveu a periferia, a discriminação racial, o preconceito religioso, a vida ribeirinha, a luta LGBTI e sabe o quanto é importante uma nova abordagem sobre esses temas.

Num cenário em que chacinas se tornaram rotina e a morte vira atração de TV, se faz necessária uma cobertura jornalística que não só contabilize corpos, mas que entenda que cada vítima tinha um nome e história, e que esse massacre precisa de uma explicação muito maior do que apenas dizer quem apertou o gatilho.

Comunicação implica em troca, e isso é uma ideia que o Outros 400 abraçou desde o princípio. Ouvir o leitor, criar pautas em conjunto com o público, questionar a própria visão e dialogar com as maiores interessadas pelas reportagens: Belém e quem vive nela.

É o jornalismo que voa alto para urubuservar toda a cidade, mas que busca energia e se alimenta na sarjeta da periferia. O jornalismo de bermuda e chinelo, como o ambulante cansado sob o sol quente. Que senta no chão pra bater papo, pois sabe que de lá é que saem as verdadeiras histórias. O jornalismo que insiste em não parecer com o jornalismo. Nada mais justo.

SERVIÇO

Campanha Reportagem Outros400

Período: 16 de Abril a 16 de Junho

Contato: (91) 98866-0352 / (91) 98165-4577

Link: https://www.catarse.me/reportagemoutros400

 

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