Guajajara

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Sônia Guajajara foi recebida com um canto de saudação na sala da Associação dos Povos Indígenas Estudantes na Universidade Federal do Pará (APYEUFPA), na última quinta-feira, 21. Depois de participar de debate no hall da reitoria da UFPA, um almoço era oferecido a ela pelos universitários indígenas. A caldeirada de peixe com farinha já aguardava sobre a mesa quando Sônia conversou com o Portal Outros400.


Pré-candidata à presidência, Sônia Guajajara cumpriu agenda em Belém (PA) na última quinta-feira, 21. Foto: (Guilherme Guerreiro Neto)


Primeira indígena a participar de uma pré-candidatura presidencial, Sônia Bone Guajajara é coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e vice na chapa encabeçada por Guilherme Boulos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). Ela é natural da terra indígena Arariboia, do povo Guajajara, na amazônia maranhense.


Nesta entrevista, Sônia fala sobre a ausência indígena na política institucional e o enfrentamento ao modelo do agronegócio, faz críticas às políticas do governo atual e dos anteriores para a Amazônia, além de opinar sobre política energética e desastres socioambientais ligados a grandes projetos na região.


***


Tem se falado muito sobre o ‘novo’ na política. Alguns candidatos à direita e ao centro se colocam sob esse rótulo, que às vezes soa vazio. A chapa de vocês e a tua candidatura como vice-presidente são o ‘novo’ à esquerda?


Com certeza. Porque a nossa pré-candidatura é formada em aliança com os movimentos sociais. A base da construção do nosso programa, daquilo que a gente acredita, já é coletiva. Muita gente se apresenta como ‘novo’, mas vem em aliança com partidos que historicamente já declararam qual é o seu lado, que é o lado da exploração pra resolver a crise econômica, com base no uso da terra pra produção, na expansão agrícola. É o capital, é atender ao capital. E nós queremos atender às pessoas, pra que as pessoas possam ter condições de se desenvolver socialmente dentro da sua realidade, do seu espaço. Eu e Guilherme [Boulos] nunca fomos da política institucional, partidária. Viemos de movimentos e, juntos, a gente traz essa construção coletiva com a diversidade. Isso já é uma mudança, porque é acreditar na participação popular de fato. Não só nesse período de construção, mas também, pensando o pós-2018, nos espaços de decisão conjunta.


No manifesto que anunciou tua pré-candidatura, antes mesmo da aliança com o Boulos, vocês destacavam que, 518 anos depois da invasão europeia, seria a primeira vez que uma liderança indígena pleitearia assumir o Palácio do Planalto. O que isso diz sobre o Brasil?


A gente está tentando superar essa subrepresentatividade, essa negação da nossa presença. Não é só uma negação de direitos, mas uma negação dos povos que o Estado brasileiro insiste em invisibilizar. A gente sempre esteve do lado de cá da história, no movimento, na resistência. E agora a gente entendeu que somente essa luta não está sendo suficiente pra ter nossos direitos e nossos modos de vida respeitados. Com a chapa majoritária pro Executivo, mas também com várias pré-candidaturas indígenas que nós estamos trazendo pro Parlamento, a gente quer participar de forma mais ativa, como protagonista na reconstrução da história do país. A gente, que esteve sempre à margem do processo, agora quer escrever um novo capítulo a partir de dentro. Não só preso no discurso, mas a partir da vivência dos nossos povos.




Guajajara havia lançado pré-candidatura própria à presidência pelo PSOL, mas acabou compondo como vice-candidata na chapa encabeçada por Guilherme Boulos. (Foto: Guilherme Guerreiro Neto)


Em países da América Latina, como a Bolívia, tem experiências de participação indígena da política institucional. No Brasil, costuma ser lembrado o caso do Mário Juruna, que foi deputado federal nos anos 1980. Por que é importante ocupar esses espaços?


A Câmara Federal hoje tem 513 parlamentares. Desses 513, nós temos apenas 57 mulheres. De 57 mulheres, somente sete são negras. E indígenas, zero. Nenhuma representação. Nem homem, nem mulher indígena. Lá nesse espaço é que se dá a construção e aprovação das leis e que se decide sobre a vida das pessoas. A nossa vida está lá, sendo duramente atacada por medidas legislativas. São 782 medidas que tramitam hoje no Congresso Nacional que dizem respeito diretamente à questão indígena e à questão ambiental. Que retrocedem direitos, negam direitos ou suprimem direitos. A base disso é mudar a Constituição Federal pra atender às necessidades do grande capital. Então nós entendemos que, se é ali que constrói, se é ali que decide, precisamos estar dentro. Somente estar aqui no movimento não estava mais sendo suficiente pra gente combater esses ataques. Se o sistema político, hoje, só permite que você entre por meio de partidos, então nós vamos entrar nessa disputa, pra que a gente possa estar no processo.


Nessa disputa no Congresso tem uma força muito poderosa que é a bancada ruralista. A bola da vez dos parlamentares ligados ao agronegócio é a tentativa de afrouxar as regras do uso de agrotóxicos. Como tu acreditas que é possível enfrentar a pressão desse grupo?


O agronegócio, as monoculturas, a pecuária têm aumentado muito porque, de fato, a bancada ruralista está com a maioria dentro do Congresso Nacional. Esses setores se organizaram e se articularam bem pra ter essa maioria. Isso facilita muito aprovações segundo os seus interesses. Nós acreditamos que, pra mudar isso, tem que ter muita coragem de enfrentar esse modelo, enfrentar os privilégios. Mas também é preciso promover o que a gente está fazendo: debates nas ruas e nas universidades com a juventude, com as mulheres, pra que as pessoas voltem a acreditar na política e compreendam que essas representações que estão lá não atendem aos interesses da população. Nós temos que renovar esse quadro dos parlamentares pra ter novos projetos, novas ideias.


O que a gente defende é que se fortaleça e que o governo subsidie as iniciativas locais, comunitárias, como a agricultura familiar, a agroecologia, o cooperativismo, essas formas que se apresentam não só como alternativas, mas como uma necessidade.


Porque se a gente continuar permitindo esse modelo altamente depredador como é hoje, baseado na exploração do território, na exploração das florestas, na exploração da água, estudos já comprovam que o planeta não aguenta mais muito tempo. É preciso ter muita coragem pra redistribuir a terra e fazer de fato a reforma agrária, pra que o pequeno produtor tenha vez e espaço pra produzir, garantindo a renda de forma mais compartilhada. O agronegócio expulsa o homem do campo, tira as pessoas do seu modo de vida, coloca as máquinas dirigidas por apenas uma pessoa e, com isso, reduz cada vez mais o emprego. É preciso dar as condições pra que o homem do campo possa viver conforme a sua realidade, o seu próprio modo de vida.


Tu és da terra indígena é a Arariboia, do povo Guajajara, que fica na Amazônia maranhense. Tem uma outra candidata, a Marina Silva (Rede), que também é amazônida. Quais as diferenças entre as visões de vocês duas sobre a região?


A Marina Silva sempre foi uma importante liderança. Ela vem do setor do extrativismo, como liderança local, ambientalista. Mas a diferença é que as nossas alianças são feitas com pessoas que pensam como nós, que pensam um novo modelo, que pensam um modelo sustentável de fato. As alianças da Marina têm comprovado que ela mudou um pouco de lado. Foi pro lado do PSDB, por exemplo, que historicamente já demonstrou do lado que está, que é o do agronegócio também. E é exatamente isso que a gente combate. Então está aí uma das nossas grandes diferenças. E ser de origem dos territórios e uma liderança indígena dá legitimidade pra gente trazer também essa defesa do meio ambiente.



Durante o almoço oferecido na UFPA, Guajajara criticou o corte da bolsa permanência de estudantes indígenas e quilombolas. (Foto: Guilherme Guerreiro Neto)


Sônia, como tu avalias a política dos governos Lula e Dilma pra Amazônia e pros povos indígenas?


Foi muito frustrante. Porque a gente acreditou. Com o sistema de governança que se formou nos governos Lula e Dilma, com essas alianças de partidos, eles tiveram que ceder o tempo todo aos compromissos feitos com o povo, e isso foi muito ruim. Porque Belo Monte, por exemplo, que a gente conseguiu travar lá atrás, em 1989, a gente não conseguiu no governo do PT. Isso foi muito frustrante. Sobretudo esse avanço dos grandes empreendimentos na Amazônia pra atender o capitalismo, um crescimento somente econômico, e a falta de respeito ao direito de consulta foram muito ruins. Então, pra gente, deixou muito a desejar.


Falaste de Belo Monte. Tem também a hidrelétrica de Teles Pires e outras ainda em discussão. Há o risco das hidrelétricas do Tapajós. É possível uma política energética pro Brasil que não sangre tanto a Amazônia?


O Brasil é um dos países que tem a maior diversidade de possibilidade de geração de energia, seja por energia solar, energia eólica. Mas pra todas as fontes de energia têm que considerar esse direito de consulta. Nenhum tipo vai garantir o direito socioambiental se não garantir o direito de consulta e consentimento da população local. A gente precisa pensar também sobre as hidrelétricas que já existem. Porque Belo Monte, por exemplo, só gera 30% do seu potencial, e já se sabia disso desde o início. Se você otimiza a produção de energia com as hidrelétricas que já existem, consegue sim gerar energia pra todo o país. Agora, tem de pensar se gera pras pessoas, pra melhorar a vida das pessoas, ou pra atender as multinacionais. Altamira, por exemplo, com um prejuízo já gigante de perda da biodiversidade, de impacto social, é a cidade que tem o custo de energia mais caro do Brasil. Muitas pessoas lá não conseguem pagar energia. Então tem que ver que lógica é essa de geração de energia. E pra quem. Se você realmente pensa em atender a população, o que tem é suficiente. Se é pra atender as multinacionais, aí tem que se pensar outras formas que impactem muito menos tanto o meio ambiente quanto a vida das pessoas.


Vamos falar sobre o governo Temer. No ano passado, houve a tentativa de extinguir a Renca, que fica no Pará e no Amapá. Tu te posicionaste sobre isso. Agora vem essa luta dos estudantes contra o corte das bolsas de quilombolas e indígenas nas universidades públicas. A ameaça aos direitos desses povos aumentou nesses dois anos de governo Temer?


Não só aumentou como se concretizou. O governo Temer, em dois anos, já retrocedeu o equivalente a 20 anos. O que a gente conseguiu por meio das cotas agora está ameaçado. Porque, quando corta bolsa, automaticamente você já está excluindo esses estudantes da universidade. E a gente lutou o tempo todo tanto pelo acesso quanto pelas condições pra permanência. Se corta a bolsa, você está expulsando os indígenas das universidades. A Renca, de novo, volta com muita força, eles querem a qualquer custo negociar. Tem o PL [Projeto de Lei] do veneno, que é esse pra legalizar o agrotóxico ainda mais na produção de alimentos. Já teve retrocesso também em territórios indígenas com processos concluídos que foram anulados. Então não tem o que dizer de bom desse desgoverno. Agora nós estamos vivendo uma outra etapa do golpe, que é o pagamento da conta pelos acordos feitos pra votação do impeachment. E nesse pagamento estão sendo usados os direitos conquistados. Não tem como a gente não lutar contra isso.


Ocorreu, em 2015, o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, Minas Gerais, e até hoje não teve uma compensação àquelas pessoas. Aqui no Pará, nós temos Barcarena, que há pelos menos 20 anos, progressivamente, tem casos de vazamento de efluentes. A chapa de vocês propõe alguma medida pra evitar esse tipo de desastre socioambiental?


Não só desastre. O que aconteceu em Mariana e aqui é considerado por nós como crime. É um crime que foi cometido por alguém. Então alguém tem que ser responsabilizado por isso. E o que nós defendemos, enquanto movimento e agora também na nossa chapa, é o reconhecimento do crime de ecocídio. Qualquer que seja o crime contra o meio ambiente, contra os rios, precisa ser reconhecido como um crime contra a humanidade. E as pessoas ou as empresas precisam ser penalizadas por isso.


Amanhã (22/06) completam cem dias do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), que virou símbolo em um país com mortandade generalizada da juventude negra e que tinha em sua luta também as questões de gênero e sexualidade. Como seguir sem a solução desse caso?


É lamentável que não se tenha até hoje uma resposta pra essa execução da Marielle. Uma coisa que precisa ser dita é que o assassinato da Marielle não entra no indicador de aumento da violência geral. O assassinato da Marielle entra na conta de crime político. Porque ela foi executada pelo que ela representava, por ser uma vereadora de voz firme, por defender as minorias, as mulheres, a população LGBT, a população negra da periferia, da favela. Ela tinha essa voz forte pela vida, pelos direitos humanos. E lutou muito contra a intervenção militar no Rio de Janeiro. O tiro que acertou a Marielle tinha um alvo, que era ela mesma, por ser essa liderança que ela era e pelo que ela representava. Com isso, eles quiseram dar um recado pra todas nós que lutamos por justiça, pra todas nós que estamos no combate à desigualdade social, pra todas nós que lutamos contra a violência. A execução da Marielle tem que entrar nessa outra conta. Não na escalada da violência no país ou no Rio de Janeiro, mas como mais um crime político. Nós seguimos exigindo investigação, justiça e punição.


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